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Assim que o visitante transpõe a
soleira da casa, divisa à direita,
sobre o móvel, emergindo na penumbra,
a cabecinha da menina, esculpida em argila.
Foi este o primeiro trabalho de Sara Carone.
Que estranha audácia a teria levado
a transferir para o barro o rosto da companheira
de escola? Que confiança inesperada
em sua perícia de aprendiz a fez
abrir sobre os joelhos o livro encontrado
ao acaso e ir seguindo, decidida, ora
a intuição, ora as regrinhas
singelas que o texto lhe transmitia? Com
as mãos na massa, foi percebendo
humildemente como era penoso o percurso
da arte, corno oscilava entre a descoberta
fortuita e a conquista, o fulgor momentâneo
e a incorporação reflexiva
do achado! É verdade que não
lhe pareceu tão difícil
resolver aquilo que mais temia: solucionar
os olhos. Viu logo que para dar a ilusão
do olhar não era necessário,
como na pintura, recorrer a uma réplica
o mais fiel possível da realidade.
Bastava embutir os olhos, deixá-los
abertos e vazios, insondáveis.
Aprovou essa regra, consagrada pela nobre
tradição clássica
e, deixando o olhar entre parêntesis,
foi em frente, disposta a encarar o novo
desafio, o acordo difícil entre
a boca e o nariz. Era ali, na ameaça
do sorriso, no brando arfar das narinas,
que tinha de aprisionar o invisível.
E foi assim que aos doze anos de idade,
insuflando vida, magicamente, à
sua criatura, Sara Carone viu que podia.
0 que aconteceu depois, sem pressa, entre
pausas e indecisões experiências
artísticas, museus, estágio
na Europa faz parte da biografia da artista
e não cabe mencionar nesta nota
breve. Prefiro me ater apenas à
relação que Sara vem mantendo
com a cerâmica.
A antropologia costuma definir o trabalho
do ferro e do barro como ofícios
ou artes do fogo. Se esta aproximação
já dificulta a compreensão
exata do que seja o oficio do poteiro,
torna impossível penetrar no estilo
personalíssimo de Sara Carone.
0 trabalho do ferro é viril, agressivo,
impõe um gesto brusco e exige uma
relação frontal com a chama.
A técnica de Sara é íntima,
feminina, pausada, e as etapas da criação
se sucedem lentas, num diálogo
ininterrupto com o calor do forno e não
do fogo. 0 trajeto é reflexivo,
cheio de indagações, avanços
e recuos, atento aos acasos que, reavaliados,
poderão assumir na obra a feição
de traços estilísticos.
Essa lentidão dá origem
a um gesto manso, acolhedor e a uma estética
da espera, se me permitem tomar o vocábulo
espera no significado duplo de paciência
e esperança, que tanto seduziu
André Guide ao surpreendê-lo
na bela expressão de nossa língua:
sala-de-espera. 0 estúdio comprova
o resultado admirável do percurso
do artista, alinhando à nossa frente
a harmonia assente e silenciosa das peças.
Afinal, tudo bem resolvido: a relação
de cada peça com o espaço,
o entrosamento dos volumes e grafismos.
Sobre o faiscar intermitente dos pequenos
brilhos, das superfícies craqueladas,
da modulação suave dos tons,
já podemos ouvir a límpida
melodia das linhas de força, o
jogo pendular em que se equilibram círculos
e retângulos. Custamos a nos libertar
das reminiscências da música,
da pintura. Mas temos que esquecer Klee,
Miró, talvez Satie, porque a qualidade
táctil da matéria conseguida.
nos obriga a ver como as crianças,
não apenas com os olhos, mas com
as mãos, deslizando os dedos sobre
a superficie vibrante, porosa, com a epiderme
feminina. Que nome dar a essas peças
tácteis e musicais? Potes? Vasilhas?
Tigelas? É impossível chamá-las
de utensílios, pois elas não
têm nada a ver com a bela utilidade
serviçal que desempenham na pintura
de Chardin, servindo o pão, o leite,
a sopa do fim do dia. 0 vasilhame de Sara,
ao contrário não nasceu
para servir, mas para criar o mundo; ele
pertence ao mundo autônomo, permanente,
das formas e da beleza. - Não será
essa uma vingança da artista? Presa
como as companheiras às tarefas
utilitárias da casa, prisioneira
do fogo, ela soube ir aprisionando o calor
à sua maneira, com aquela desenvoltura
que já havia demonstrado em menina,
quando decidiu esculpir, orgulhosa e solitária.
Gilda de Mello e Souza - 1994
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