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Aos 12 anos, uma menina resolveu esculpir
no barro o rosto da colega de classe.
Pôs a mão na massa e, ao
chegar aos olhos, ficou cheia de dúvidas
sobre o que deveria fazer. Folheando um
livro de esculturas, leu que os olhos
não precisam ser feitos necessariamente
com pupilas. Seguiu a dica, mas depois
sentiu-se como se tivesse roubado a solução
e, portanto, não fosse a verdadeira
autora de peça. E, já que
não passava de uma ladra, era melhor
desistir. Não fosse por esse sentimento
ingênuo – afinal, técnicas
se aprendem em qualquer profissão
– e teríamos tido a oportunidade
de privar do talento da grande ceramista
Sara Carone bem antes. Mas quem é
que está com pressa? Sara, seguramente,
não. Ansiedade é uma palavra
que parece nem existir em seu dicionário.
Ela retomou a carreira interrompida na
pré-adolescência só
na maturidade, nos anos 80, quando já
tinha passado dos 30. Se precisou esperar
um tempão para sentir-se boa o
suficiente para voltar a esculpir, o reconhecimento
a seu trabalho não tardou. Sara
Carone já expôs três
vezes no “país da cerâmica”,
o Japão – em 1990 e 1993,
na Murata Gallery, de Tóquio, uma
galeria exclusiva de cerâmica e
vidro, e em 1993 na Tsubaky Gallery, em
Chiba. Tem obras de sua autoria no acervo
do Museu Nacional de Arte Moderna de Tóquio,
incluídas por Mitsuhiko Hasebe,
o crítico de cerâmica mais
respeitado daquele país hoje. Em
1991, mereceu a matéria de capa
da revista norte-americana Ceramics, no
mesmo ano, fez uma exposição
individual na Jane Corkin Gallery, em
Toronto, Canadá: em 1994 seu trabalho
mereceu uma alentada mostra no Museu Nacional
do Azulejo, em Lisboa, Portugal; e em
1995 foi a vez de o Museu de Arte de São
Paulo, o MASP, abrir-lhe as portas.
Tudo isso foi conquistado sem alardes,
silenciosamente, com um trabalho que remete
palavras como delicadeza, suavidade e
harmonia. Numa época em que a maioria
dos ceramistas abusa do esmalte e das
cores, “disfarçando”
o barro com uma grossa camada vítrea.
Sara desnuda a matéria com que
trabalha e sobrepõe a ela um jogo
gráfico sutil, delicado por vezes
irônico e sempre de grande beleza.
Tirar os olhos da peça e volta-los
para a artista permite constatar um desses
raros casos de coerência entre o
que se é e o que se faz. Sara é
despretensiosa, passa ao largo da autopromoção,
não se vangloria de nada. Nela,
nada é chamativo ou gritante –
evidente, mesmo, só o prazer de
demonstrar quando está montando,
esmaltando, queimando. Tudo muito leve,
como se ir tirando do barro essas formas
e grafismos fosse algo absolutamente “natural”,
que prescinde de esforço ou determinação.
Ou como se a expressão artística
fosse uma diversão calma e profunda.
Revista: ÍCARO
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