Obras Sara Carone
SECULAR E ATUAL
Na arte comtemporânea, a cerâmica pode ser uma fonte de complexas discussões


A Pintura é, no conjunto das artes plásticas, a mais representativa, da qual mais se trata. As assim chamadas “menores” são artes incidentais, quase curiosas, a literatura crítica senão inexistente bem escassa. É também por isso, que ao passo que a pintura de cavalete recruta numerosos elementos, especialmente havendo hoje a facilidade de execução à disposição de qualquer um, as produções que dependem de aplicação e trabalho manual recebem menos atenção, para não dizer esquecimento. Uma demonstração do que estou afirmando pode ser o pouco interesse pela excepcional coleção de cerâmicas italianas do Quatrocentos e do Quinhentos que o Masp possui, apesar das pinturas apresentadas em certos pratos. E mais: quando tive a sorte de comprar o conjunto, em Paris, por quase nada, expondo-o em São Paulo, não verifiquei a mínima atenção da imprensa e dos assim denominados críticos.

Assim vai suscitar esta pagina dedicada à Cerâmica, arte, diga-se de passagem, de grande importância no Brasil, seção notável no barroco. Faço esta observação reportando-me a uma exposição que Sara Carone apresentou na Paulo Figueiredo Galeria de Arte, uma série de obras, nas quais se notou um fato singular: o emprego de motivos decorativos comuns na pintura dos abstracionistas, desenho da esquecida figuração, nem incertos nem geométricos, de finura conceitual.

No prefacio do catálogo Megume Yusa observa: “Os imprevisíveis acontecimentos do fogo e da fumaça são incorporados em seu trabalho após exigente leitura e escolha, evitando a aceitação do efeito fácil e técnica de redução. Seu desenho rigoroso e bem-humorado tem a força de modificar o sentido do objeto-utensílio para objeto de arte.”

O apresentador tinha tonado o recurso da ceramista em considerar formas de utensílios observando sua síntese e lapidação pelo uso e pelo tempo. Sara valendo-se de formas clássicas, crio um conjunto que se distingue por ornamentações tridimensionais de inventivos desenhos e , especialmente escolha de cores, de caráter bastante pessoal, com tendência a uma decoração sutil. É, afinal, uma cerâmica afirmadora de singularidade, expressando composições originais bem pertinentes a uma arte que é pouco valorizada.

A manifestação permite notar que as artes “menores” se prestam a sinalizações mais freqüentes, estava lendo no prefácio de Célia Cymbalista, especialista e professora nesta arte, para o catalogo de V Mostra Aberta de Cerâmica Arte, realizado no ano passado, no Museu de Arte Brasileira, que, “seja qual for a opção teórica, seria interessante ao sinal vermelho que é a ausência de críticas e textos teóricos a respeito de cerâmica – o que aponta na direção da referida falta de parâmetros e critérios que lhe digam respeito”.

Praticamente se espera um maior interesse pela Cerâmica, como de resto para todas as artes complementares. Mas vai ser sempre assim? Toda a cultura está vivendo um momento de transformação, as revisões são cotidianas, às vezes imperceptíveis. Esta exposição de Sara Carone, mostrando uma arte secular, alude a problemas atuais bem complexos. Valeu apenas acenar a um deles.

Prof. Pietro Maria Bardi

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