Obras Sara Carone

GUIA DAS ARTES

Vistas à distância, as cerâmicas de Sara Carone podem ser tomadas por utilitários de bom desenho, de concepç oatilde;o sensível e tecnicamente resolvidos com habilidade. Correm o risco de por equívoco serem incluídos na categoria de objetos para uso cotidiano, projetados por um artista e executados por um artesão - cada um deles bem sabedor de seu riscado.

Mas os caminhos percorridos remetem-nas a outras categorias de objetos. Queimas na baixa temperatura do raku, superfícies texturizadas e, principalmente, paredes poros oatilde;o essenciais para a caracterizaç&aatilde;o das peças. Afastam-nas do uso prático, enviam-nas aos olhos e ao significado. Porém se est oatilde;o fora da funcionalidade do objeto utilitário, também est oatilde;o distanciadas da escultura.

A cerâmica de Sara Carone atesta preocupações e um trânsito com a arte que já datam de vários anos. O interesse que manifesta pela sobreposiç oatilde;o de texturas, pelo negro intenso e pelas modulações de tonalidades opacas, denunciam ações de pintura que recebeu de Takaoka e de Yolanda Mohalyi. A precis oatilde;o das formas que constrói e a liberdade com o experimento s oatilde;o conjugações entre as oficinas do mestre torneiro Lelé e as da Escola Brasil. Traduz a discuss oatilde;o de Megumi Yuasa sobre a potencialidade da cerâmica como veículo para a criaç oatilde;o artística, de acordo com sua tendência pessoal para a pesquisa. Toma como ponto de partida o objeto utilitário: a forma depurada que o tempo e o uso provaram ser eficiente. Mas a funç oatilde;o uso n oatilde;o é um alvo que almeja. Sua familiaridade com o barro, com o fogo e com os esmaltes lhe permitiu que aprendesse com o inesperado e com as limitações do material, procurando meios para transformar os erros em recursos. Aos poucos foi compondo um vocabulário próprio, articulado por uma intenç oatilde;o bem determinada e pela cumplicidade com o acaso. Frutos de sua vontade s oatilde;o a forma bem estruturada e o desenho preciso feito com máscaras. O conhecimento dos elementos que usa lhe permite negociações com o acaso. Maneja a forma, as cções dos banhos de esmalte adições de queima para obter sobreposições de ranhuras delicadas, variações sutis de tonalidades opacas e nuvens de pontilhados que se condensam ou dispersam.

O resultado final de seu trabalho é um objeto que na verdade é utilitário nem escultórico, mas sim o produto de uma pesquisa séria e bem-sucedida de uma artista que optou pela exploraç oatilde dos meios que a cerâmica oferece.

Maria Isabel Branco Ribeiro

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