
PERCURSO E DESCOBERTA DE SARA CARONE
Sara Carone nasceu em São Paulo em 29 de outubro de 1945, numa família de interesses amplos e variados. Seu pai, Maxim Tolstói Carone (1917-1980), lecionava História quando foi preso no início de 1941, pela polícia do Estado Novo, por suas vinculações com o Partido Comunista. Ao sair da prisão, sem conseguir retomar o posto, foi administrar uma fazenda da família, em Bofete, SP. As experiências de fundo socialista que tenta implementar na fazenda o levam a entrar em choque com o antigo administrador. Algum tempo depois, retorna a São Paulo e, já com família para sustentar, ingressa no ramo do comércio de madeiras, atividade que desempenhará até o final da vida.
A mãe, Guida Camargo Carone (1916-2008), técnica do laboratório de Veterinária da Universidade de São Paulo, interrompe o curso de Sociologia na mesma universidade em 1942, para acompanhar o marido à fazenda de Bofete. Por meio do convívio com Paulo Emílio Salles Gomes, de quem era prima e a quem esteve sempre ligada, Guida mantém contato com os intelectuais reunidos em torno da revista Clima, que conhecera na faculdade, e acompanha de perto a vida cultural da cidade. Durante algum tempo mantém um ateliê nos fundos de casa e tem aulas de pintura com Yoshyia Takaoka (1909-1978) e Waldemar da Costa (1904-1982).
Aluna bastante distraída, Sara Carone repete o segundo ano primário na Escola de Aplicação ao Ar Livre D. Pedro I, da Lapa. Em 1957, a mãe a matricula no Jardim Escola São Paulo, onde seus interesses são despertados pela dança e pela cerâmica - a primeira ministrada por uma professora russa, a segunda, por Ima Rosberg, uma escultora austríaca. Ante a disposição da menina, ambas as professoras a convidam para seguir aulas de balé e modelagem em seus ateliês particulares. é nessa época que Sara esculpe em argila a cabecinha de uma colega, obra que mais tarde será comentada por Gilda de Mello e Souza na abertura de seu ensaio "Feminina, táctil, musical", de 1992.[1] Nesse final de infância, início de adolescência, encantada sobretudo pelo balé, a menina imagina sua vida inteira ligada à dança - até que torce o pé num acidente de bicicleta. A lesão não é grave, porém o osso se calcifica fora do eixo e o sonho de passar a vida dançando fica em suspenso.
Indecisa quanto ao futuro, porém fascinada com o funcionamento do corpo humano e da natureza, em 1968 presta exames para Medicina e Odontologia. Entra na primeira, mas recusa-se a cursar; entra na segunda e muda-se para São José dos Campos, para fazer o curso na Faculdade de Odontologia local.
Em São Paulo, durante as férias de julho do segundo ano, participa de sessões de pintura com Takaoka. Ao pintar o fundo de uma natureza-morta, uma revelação: modelar o espaço, o espaço entre as coisas, por meio da cor e da plasticidade da tinta a óleo, é uma experiência vertiginosa. Embora não haja "nada de excepcional naquele fundo" (conforme suas palavras de hoje), a experiência é arrebatadora. Sente que é inteiramente tomada e absorvida pela pintura. é isso que deseja fazer.
Em agosto, de volta a São José dos Campos, inscreve-se num ateliê livre de artes orientado pelo escultor italiano Luigi Zanotto (1919-1989). Sara pega latas usadas, recorta as lâminas de metal, amassa, dobra, perfura e monta-as sobre bases de madeira - numa série de relevos que têm algo de construtivo e, ao mesmo tempo, grande liberdade na execução. Poucos dias depois, no meio de uma aula da faculdade, Sara ergue o braço, pede licença ao professor, levanta e sai para nunca mais retomar o curso de Odontologia.
Na casa da rua Caiovás, em Perdizes, São Paulo, onde volta a morar com os pais, apossa-se do ateliê dos fundos e, paralelamente aos relevos, começa a pintar. Inicia-se um período de trabalho e estudo intenso. No intervalo de poucos anos, Sara irá se expor a concepções muito variadas da arte e do fazer artístico. Ainda em 1969, frequenta as aulas de pintura e desenho de Yolanda Mohalyi (1909-1978), no Sumaré. No ano seguinte, a convite da artista, acompanha Mohalyi a Washington e Nova York, e realiza sua primeira grande temporada de "imersão em museus". Pouco depois, em São Paulo, trava contato próximo com Livio Abramo - contato que se prolongará, por correspondência, ao longo de anos. Na recém-criada Escola Brasil, encontra uma biblioteca de artes muito bem aparelhada, um clima de grande abertura e discussão, e acompanha os cursos de Carlos Fajardo, Luiz Paulo Baravelli, Frederico Nasser, José Resende e também Maciej Babinsky, com quem faz gravura em metal.
Enquanto se embebe do mundo da arte ao seu redor, Sara dedica-se, simultaneamente, aos relevos em metal e à pintura em tela. Os primeiros têm uma aceitação espantosa: em 1969, no XXVI Salão Paranaense de Arte Contemporânea, ela recebe o Prêmio de Escultura Governador do Estado do Paraná; no ano seguinte, na II Mostra de Artes Plásticas de São José dos Campos, o Prêmio Aquisição; em 1971, na exposição Jovem Arte Contemporânea, tem um relevo adquirido por Fulvia e Adolpho Leirner. Pietro Maria Bardi vê essa obra na casa dos colecionadores e decide incluir peças da artista na mostra Imagens do Brasil, em Bruxelas, Bélgica, 1973.
Sara, entretanto, desconfia desse trabalho que dá tão certo: a esta altura, os relevos em metal lhe parecem demasiadamente fáceis e seguros. A pintura, esta sim permanece o grande desafio. Abandona então os relevos e se lança, com entrega total, à pintura, em sessões de trabalho que avançam por horas, de modo intenso e exaustivo. Os resultados, entretanto, quase nunca a satisfazem.
Em junho de 1976, num impasse com relação à pintura e sensível à atmosfera política opressiva da época, Sara parte para a Europa, onde tem amigos. Permanece em Roma por nove meses, dividindo o apartamento com o pintor Manuel Fernandes. Segue-se uma nova temporada de imersão, agora em museus italianos. De modo geral, visita-os pelas manhãs e deixa as tardes livres para desenhar e pintar. Em 1977, a caminho de Londres, o encontro com as obras de Kokoschka, Nolde e Munch, num museu da Basiléia, causa-lhe um abalo. Muda o roteiro e segue até Oslo para ver de perto mais obras desse último. Em Londres, onde se instala no mês de julho, retoma a rotina de trabalho da Itália. Passa os dias nos museus, desenhando continuamente; em pequenos cadernos, faz as primeiras abstrações com manchas de nanquim.
Os quase dois anos de Europa, vividos em proximidade intensa com a arte, operam transformações. A percepção estética aguçada já não fica reservada às obras e aos museus, mas estende-se à natureza, às ruas, a uma praça, a um passeio de ônibus. Entre a arte e a vida, há vasos comunicantes. No que toca à pintura, experimenta mais prazer diante da obra dos outros do que da sua própria e, tomada por um sentimento de plenitude, para de pintar.
Em 1978, quando retorna ao Brasil, considera tornar-se acompanhante de idosos, ou algo parecido, e trabalha como auxiliar de fotografia. No mesmo ano, enamora-se de Joseph Edouard Blumenfeld, com quem rapidamente passa a morar junto. Em 1980, o casal se muda para a casa da rua Morás, que ocupa hoje, e em 29 de outubro, mesmo dia de seu aniversário, Sara dá à luz as gêmeas Thais e Esther.
Dois anos depois, aos 37 anos, buscando um respiro em meio aos cuidados incessantes com as gêmeas, Sara vai ter aulas de torno cerâmico numa garagem da Vila Madalena, com Adelino Rodrigues, mestre Lelé, artesão cuja família, há várias gerações, se especializara na construção de potes de barro na região do Minho, em Portugal. O ritmo do trabalho no barro - que se realiza por etapas e requer uma atenção especial a condições de umidade, temperatura, resistência e fragilidade do material - se encaixa bem na rotina diária de cuidar dos bebês.
Em 1983 Sara compra seu próprio torno e o planta no meio da sala. Em maio do ano seguinte, nasce o terceiro filho, Luis. Em 1985 adquire um forno de raku, que instala no fundo do quintal. Agora o trabalho toma impulso próprio. No torno, distante de qualquer preocupação utilitária, Sara elege um desafio: recordava-se de ter passado horas no Museu Britânico, observando os desenhos nos vasos gregos, mas se dá conta de que os próprios vasos, os vasos em si, ela não vira. Agora é precisamente essa forma não vista, essa espécie de grau zero da plástica, tão comum, tão usada, tão reproduzida a ponto de parecer esvaziada de capacidade inventiva - é essa forma-desafio que a atrai, e a partir dela se põe a trabalhar.
O forno de raku (técnica de cerâmica japonesa, desenvolvida para a cerimônia do chá) também abre um campo fértil à experimentação. Passa a combinar e misturar esmaltes por conta própria; a testar modos alternativos de queima, retirando as peças antes do ponto de fusão dos esmaltes; a inventar procedimentos de difícil compreensão até para ceramistas experimentados, sem medo algum de errar. Ao contrário, agora cada "erro" abre um campo de possibilidades: os acidentes a estimulam e - com o desejo de trabalhar no limite do material - Sara anota rigorosamente os dados e resultados de cada experiência, para compreender o modo de "funcionamento dos acidentes".
Numa entrevista, ela resumiu assim o seu processo de trabalho: "Aprendo muito com os erros; anoto tudo e repito. Chegou um momento em que começaram a me interessar mais os erros do que os acertos. Se usava um esmalte e ele falhava, eu ficava intrigada, pensando: que aconteceu? Os erros sempre foram meus melhores professores. Aprender com meus próprios erros foi a minha escola. Acho que tem a ver com uma questão de prazer estético, com o ato de sair para procurar outro caminho".
Em 1989, no catálogo da mostra individual da artista na galeria Paulo Figueiredo, em São Paulo, Megumi Yuasa observou como suas peças haviam atingido rapidamente "a maturidade, graças a sua disciplina na pesquisa e na criação. Seu trabalho com o desenho, a pintura e a escultura, que data de muitos anos, tem agora papel fundamental em sua cerâmica".
No barro, todo o trajeto de Sara Carone se resume e se condensa: a atração da escultura, o gosto pela cor e a plasticidade da pintura, as horas de desenho de observação que agora dão lugar à prática de um grafismo intuitivo, de grande concentração, com a leveza de uma notação coreográfica.
Aquele percurso que, no dizer de Gilda de Mello e Souza, é "cheio de indagações, avanços e recuos", agora se dirige a passos largos - e graças à "incorporação reflexiva do acaso" - para o domínio de seus meios expressivos e o exercício pleno de uma maturidade artística incomum.
Os resultados não se fazem esperar. Em 1990, Sara realiza a primeira das cinco exposições que fará no Japão e tem peças adquiridas pelo Museu Nacional de Arte Moderna de Tóquio. A esta primeira exposição internacional, se seguirão exposições em Portugal (no Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa), na Espanha e no Canadá, onde expõe em Toronto, na Jane Corkin Gallery, quando suas cerâmicas partilham o espaço com as fotos de André Kertész.
Num equilíbrio delicado entre matéria e desenho, sem ser propriamente escultura nem objeto, a cerâmica de Sara Carone habita um lugar de difícil classificação, ao mesmo tempo mais longe e mais perto do entendimento.
Mais uma vez, a ensaísta captou bem a singularidade de suas invenções ao escrever: "Que nome dar a essas peças tácteis e musicais? [...] é impossível chamá-las de utensílios, pois elas nada têm a ver com a bela utilidade serviçal que desempenham na pintura de Chardin, servindo o leite, o pão, a sopa do fim do dia. O vasilhame de Sara, ao contrário, não nasceu para servir, mas para criar o mundo".
Mundo de beleza singular, de silêncio irredutível, que escapa à noção de gênero e pede, a cada peça, um olhar atento, impregnado de história mas capaz de recomeçar do zero, como a natureza da arte e do desejo.
Sara Carone nasceu em São Paulo em 29 de outubro de 1945, numa família de interesses amplos e variados. Seu pai, Maxim Tolstói Carone (1917-1980), lecionava História quando foi preso no início de 1941, pela polícia do Estado Novo, por suas vinculações com o Partido Comunista. Ao sair da prisão, sem conseguir retomar o posto, foi administrar uma fazenda da família, em Bofete, SP. As experiências de fundo socialista que tenta implementar na fazenda o levam a entrar em choque com o antigo administrador. Algum tempo depois, retorna a São Paulo e, já com família para sustentar, ingressa no ramo do comércio de madeiras, atividade que desempenhará até o final da vida.
A mãe, Guida Camargo Carone (1916-2008), técnica do laboratório de Veterinária da Universidade de São Paulo, interrompe o curso de Sociologia na mesma universidade em 1942, para acompanhar o marido à fazenda de Bofete. Por meio do convívio com Paulo Emílio Salles Gomes, de quem era prima e a quem esteve sempre ligada, Guida mantém contato com os intelectuais reunidos em torno da revista Clima, que conhecera na faculdade, e acompanha de perto a vida cultural da cidade. Durante algum tempo mantém um ateliê nos fundos de casa e tem aulas de pintura com Yoshyia Takaoka (1909-1978) e Waldemar da Costa (1904-1982).
Aluna bastante distraída, Sara Carone repete o segundo ano primário na Escola de Aplicação ao Ar Livre D. Pedro I, da Lapa. Em 1957, a mãe a matricula no Jardim Escola São Paulo, onde seus interesses são despertados pela dança e pela cerâmica - a primeira ministrada por uma professora russa, a segunda, por Ima Rosberg, uma escultora austríaca. Ante a disposição da menina, ambas as professoras a convidam para seguir aulas de balé e modelagem em seus ateliês particulares. é nessa época que Sara esculpe em argila a cabecinha de uma colega, obra que mais tarde será comentada por Gilda de Mello e Souza na abertura de seu ensaio "Feminina, táctil, musical", de 1992.[1] Nesse final de infância, início de adolescência, encantada sobretudo pelo balé, a menina imagina sua vida inteira ligada à dança - até que torce o pé num acidente de bicicleta. A lesão não é grave, porém o osso se calcifica fora do eixo e o sonho de passar a vida dançando fica em suspenso.
Indecisa quanto ao futuro, porém fascinada com o funcionamento do corpo humano e da natureza, em 1968 presta exames para Medicina e Odontologia. Entra na primeira, mas recusa-se a cursar; entra na segunda e muda-se para São José dos Campos, para fazer o curso na Faculdade de Odontologia local.
Em São Paulo, durante as férias de julho do segundo ano, participa de sessões de pintura com Takaoka. Ao pintar o fundo de uma natureza-morta, uma revelação: modelar o espaço, o espaço entre as coisas, por meio da cor e da plasticidade da tinta a óleo, é uma experiência vertiginosa. Embora não haja "nada de excepcional naquele fundo" (conforme suas palavras de hoje), a experiência é arrebatadora. Sente que é inteiramente tomada e absorvida pela pintura. é isso que deseja fazer.
Em agosto, de volta a São José dos Campos, inscreve-se num ateliê livre de artes orientado pelo escultor italiano Luigi Zanotto (1919-1989). Sara pega latas usadas, recorta as lâminas de metal, amassa, dobra, perfura e monta-as sobre bases de madeira - numa série de relevos que têm algo de construtivo e, ao mesmo tempo, grande liberdade na execução. Poucos dias depois, no meio de uma aula da faculdade, Sara ergue o braço, pede licença ao professor, levanta e sai para nunca mais retomar o curso de Odontologia.
Na casa da rua Caiovás, em Perdizes, São Paulo, onde volta a morar com os pais, apossa-se do ateliê dos fundos e, paralelamente aos relevos, começa a pintar. Inicia-se um período de trabalho e estudo intenso. No intervalo de poucos anos, Sara irá se expor a concepções muito variadas da arte e do fazer artístico. Ainda em 1969, frequenta as aulas de pintura e desenho de Yolanda Mohalyi (1909-1978), no Sumaré. No ano seguinte, a convite da artista, acompanha Mohalyi a Washington e Nova York, e realiza sua primeira grande temporada de "imersão em museus". Pouco depois, em São Paulo, trava contato próximo com Livio Abramo - contato que se prolongará, por correspondência, ao longo de anos. Na recém-criada Escola Brasil, encontra uma biblioteca de artes muito bem aparelhada, um clima de grande abertura e discussão, e acompanha os cursos de Carlos Fajardo, Luiz Paulo Baravelli, Frederico Nasser, José Resende e também Maciej Babinsky, com quem faz gravura em metal.
Enquanto se embebe do mundo da arte ao seu redor, Sara dedica-se, simultaneamente, aos relevos em metal e à pintura em tela. Os primeiros têm uma aceitação espantosa: em 1969, no XXVI Salão Paranaense de Arte Contemporânea, ela recebe o Prêmio de Escultura Governador do Estado do Paraná; no ano seguinte, na II Mostra de Artes Plásticas de São José dos Campos, o Prêmio Aquisição; em 1971, na exposição Jovem Arte Contemporânea, tem um relevo adquirido por Fulvia e Adolpho Leirner. Pietro Maria Bardi vê essa obra na casa dos colecionadores e decide incluir peças da artista na mostra Imagens do Brasil, em Bruxelas, Bélgica, 1973.
Sara, entretanto, desconfia desse trabalho que dá tão certo: a esta altura, os relevos em metal lhe parecem demasiadamente fáceis e seguros. A pintura, esta sim permanece o grande desafio. Abandona então os relevos e se lança, com entrega total, à pintura, em sessões de trabalho que avançam por horas, de modo intenso e exaustivo. Os resultados, entretanto, quase nunca a satisfazem.
Em junho de 1976, num impasse com relação à pintura e sensível à atmosfera política opressiva da época, Sara parte para a Europa, onde tem amigos. Permanece em Roma por nove meses, dividindo o apartamento com o pintor Manuel Fernandes. Segue-se uma nova temporada de imersão, agora em museus italianos. De modo geral, visita-os pelas manhãs e deixa as tardes livres para desenhar e pintar. Em 1977, a caminho de Londres, o encontro com as obras de Kokoschka, Nolde e Munch, num museu da Basiléia, causa-lhe um abalo. Muda o roteiro e segue até Oslo para ver de perto mais obras desse último. Em Londres, onde se instala no mês de julho, retoma a rotina de trabalho da Itália. Passa os dias nos museus, desenhando continuamente; em pequenos cadernos, faz as primeiras abstrações com manchas de nanquim.
Os quase dois anos de Europa, vividos em proximidade intensa com a arte, operam transformações. A percepção estética aguçada já não fica reservada às obras e aos museus, mas estende-se à natureza, às ruas, a uma praça, a um passeio de ônibus. Entre a arte e a vida, há vasos comunicantes. No que toca à pintura, experimenta mais prazer diante da obra dos outros do que da sua própria e, tomada por um sentimento de plenitude, para de pintar.
Em 1978, quando retorna ao Brasil, considera tornar-se acompanhante de idosos, ou algo parecido, e trabalha como auxiliar de fotografia. No mesmo ano, enamora-se de Joseph Edouard Blumenfeld, com quem rapidamente passa a morar junto. Em 1980, o casal se muda para a casa da rua Morás, que ocupa hoje, e em 29 de outubro, mesmo dia de seu aniversário, Sara dá à luz as gêmeas Thais e Esther.
Dois anos depois, aos 37 anos, buscando um respiro em meio aos cuidados incessantes com as gêmeas, Sara vai ter aulas de torno cerâmico numa garagem da Vila Madalena, com Adelino Rodrigues, mestre Lelé, artesão cuja família, há várias gerações, se especializara na construção de potes de barro na região do Minho, em Portugal. O ritmo do trabalho no barro - que se realiza por etapas e requer uma atenção especial a condições de umidade, temperatura, resistência e fragilidade do material - se encaixa bem na rotina diária de cuidar dos bebês.
Em 1983 Sara compra seu próprio torno e o planta no meio da sala. Em maio do ano seguinte, nasce o terceiro filho, Luis. Em 1985 adquire um forno de raku, que instala no fundo do quintal. Agora o trabalho toma impulso próprio. No torno, distante de qualquer preocupação utilitária, Sara elege um desafio: recordava-se de ter passado horas no Museu Britânico, observando os desenhos nos vasos gregos, mas se dá conta de que os próprios vasos, os vasos em si, ela não vira. Agora é precisamente essa forma não vista, essa espécie de grau zero da plástica, tão comum, tão usada, tão reproduzida a ponto de parecer esvaziada de capacidade inventiva - é essa forma-desafio que a atrai, e a partir dela se põe a trabalhar.
O forno de raku (técnica de cerâmica japonesa, desenvolvida para a cerimônia do chá) também abre um campo fértil à experimentação. Passa a combinar e misturar esmaltes por conta própria; a testar modos alternativos de queima, retirando as peças antes do ponto de fusão dos esmaltes; a inventar procedimentos de difícil compreensão até para ceramistas experimentados, sem medo algum de errar. Ao contrário, agora cada "erro" abre um campo de possibilidades: os acidentes a estimulam e - com o desejo de trabalhar no limite do material - Sara anota rigorosamente os dados e resultados de cada experiência, para compreender o modo de "funcionamento dos acidentes".
Numa entrevista, ela resumiu assim o seu processo de trabalho: "Aprendo muito com os erros; anoto tudo e repito. Chegou um momento em que começaram a me interessar mais os erros do que os acertos. Se usava um esmalte e ele falhava, eu ficava intrigada, pensando: que aconteceu? Os erros sempre foram meus melhores professores. Aprender com meus próprios erros foi a minha escola. Acho que tem a ver com uma questão de prazer estético, com o ato de sair para procurar outro caminho".
Em 1989, no catálogo da mostra individual da artista na galeria Paulo Figueiredo, em São Paulo, Megumi Yuasa observou como suas peças haviam atingido rapidamente "a maturidade, graças a sua disciplina na pesquisa e na criação. Seu trabalho com o desenho, a pintura e a escultura, que data de muitos anos, tem agora papel fundamental em sua cerâmica".
No barro, todo o trajeto de Sara Carone se resume e se condensa: a atração da escultura, o gosto pela cor e a plasticidade da pintura, as horas de desenho de observação que agora dão lugar à prática de um grafismo intuitivo, de grande concentração, com a leveza de uma notação coreográfica.
Aquele percurso que, no dizer de Gilda de Mello e Souza, é "cheio de indagações, avanços e recuos", agora se dirige a passos largos - e graças à "incorporação reflexiva do acaso" - para o domínio de seus meios expressivos e o exercício pleno de uma maturidade artística incomum.
Os resultados não se fazem esperar. Em 1990, Sara realiza a primeira das cinco exposições que fará no Japão e tem peças adquiridas pelo Museu Nacional de Arte Moderna de Tóquio. A esta primeira exposição internacional, se seguirão exposições em Portugal (no Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa), na Espanha e no Canadá, onde expõe em Toronto, na Jane Corkin Gallery, quando suas cerâmicas partilham o espaço com as fotos de André Kertész.
Num equilíbrio delicado entre matéria e desenho, sem ser propriamente escultura nem objeto, a cerâmica de Sara Carone habita um lugar de difícil classificação, ao mesmo tempo mais longe e mais perto do entendimento.
Mais uma vez, a ensaísta captou bem a singularidade de suas invenções ao escrever: "Que nome dar a essas peças tácteis e musicais? [...] é impossível chamá-las de utensílios, pois elas nada têm a ver com a bela utilidade serviçal que desempenham na pintura de Chardin, servindo o leite, o pão, a sopa do fim do dia. O vasilhame de Sara, ao contrário, não nasceu para servir, mas para criar o mundo".
Mundo de beleza singular, de silêncio irredutível, que escapa à noção de gênero e pede, a cada peça, um olhar atento, impregnado de história mas capaz de recomeçar do zero, como a natureza da arte e do desejo.
Alberto Martins






